Friday, bloody Friday #120

Boa sexta-feira, caros leitores!

Neste feriado de Páscoa consegui colocar umas leituras em dia, e hoje vou falar um pouco sobre mais três títulos que andei lendo recentemente. Vamos lá!

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Autor: Akihito Yoshitomi
Publicado no Brasil pela JBC

Eu demorei pra caramba pra pegar esse mangá pra ler. Pra vocês terem uma ideia, comprei na Comic Con Experience em dezembro do ano passado e só fui ler no carnaval. Eu passei no stand da JBC para comprar All You Need is Kill e me deparei com dois volumes de After School of the Earth na prateleira. Me chamaram muito a atenção porque as capas eram fodendo lindas! Folheei as revistas e achei a arte maravilhosa. Comprei só por isso.

Em poucas ocasiões testemunhei uma HQ que desse tanta atenção aos cenários quanto After School of the Earth. A maior parte da história se passa entre paisagens urbanas pós apocalípticas. A arquitetura é tão detalhada e as localizações parecem tão precisas que quase dá pra imaginar como era a vida naquelas cidades, como eram as pessoas que andavam por aquelas ruas e quem eram os habitantes daquelas casas. É possível sentir uma paz incrível ao observar os desenhos das selvas de pedra abandonadas e quase dá pra ouvir o vento quando vemos as ruas completamente inundadas pela água do mar, formando oceanos entre os rochedos artificiais.

Tirando isso, o mangá é uma bosta.
Lembram quando falei que 20th Century Boys tinha um main plot muito bacana, mas pecou no desenvolvimento ao longo das edições? Com After School é a mesma coisa, a diferença é que o mangá completo tem apenas 6 volumes.

A história gira em torno de 4 crianças que de alguma forma sobreviveram ao desaparecimento de todas as pessoas na Terra. Ao mesmo tempo que tentam sobreviver sozinhas, ainda existe a ameaça de criaturas desconhecidas chamadas “Phantoms”. Os phantoms são seres interdimensionais parecidos com o Venom e são responsáveis pelo sumiço de toda a humanidade. Há todo um ar de mistério em volta dessas criaturas e do que causou esta calamidade. Também há um clima bem feel-good nas cenas mais tranquilas e contemplativas. Como eu disse, um plot muito interessante.

Mas, por Deus, os personagens tinham que ser tão irritantes? O grupo de crianças sobreviventes é composto de duas meninas adolescentes (Sanae e Yaeko), uma garotinha de 10 anos (Anna) e um garoto adolescente (Masashi). A personalidade deles é bem definida e distinta entre si, mas é exatamente o que você já viu em animes como Love Hina e Tenchi Muyo. Sanae é a garota tímida e insegura, Yaeko é a extrovertida e sexualmente provocante, Anna é a criança barulhenta e Masashi é o geek que é dedicaZzzzzzzzzz… A relação entre eles é exatamente a mesma dos animes citados acima. As garotas são loucas pelo garoto e ele nem tchum. Até daria pra relevar isso em prol de descobrir o que a foda aconteceu com o mundo, mas essa relação acaba dando o direcionamento principal da trama. Pode ser que eu esteja velho e resmungão demais, mas não consigo mais ter paciência pra mais um Tenchi Muyo da vida. Mesmo que seja no apocalipse.

Por que ler: Pela arte, caso isso faça diferença pra você. E caso você goste de animes e mangás do gênero cara-nerd-que-de-repente-se-vê-rodeado-de-garotas.
Porque não ler: Porque você provavelmente já viu esse gênero de anime/mangá antes antes e não vai querer pagar R$ 13,90 por edição.

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Roteiro: Chris Roberson
Arte: Mike e Laura Allred
Vertigo
Publicado no Brasil pela Painini Comics

Depois do sucesso de Walking Dead e da inundação global de zumbis no cinema, na TV, nos games, nos quadrinhos, livros, na música, toilet media e até nas pegadinhas do Sílvio Santos, ninguém deve mais deve ter saco para o tema. Essa era minha opinião.
Mas tudo mudou quando  a Nação do Fogo atacou iZombie chegou às bancas. Tirando the Walking Dead, há poucos quadrinhos de zumbis que constroem uma narrativa realmente cativante. Sem falar que tem a arte maravilhosa do Mike Allred. Só isso já valeria a grana gasta.

Em praticamente toda histórias de zumbi vemos protagonistas humanos que tentam sobreviver às intempéries de um mundo deteriorado com pessoas mais deterioradas ainda que não pensam em mais nada além de comer carne viva. Aliás, nem pode-se dizer que “pensam”. Mas em iZombie, a protagonista é Gwen, uma zumbi sonhadora, que trabalha como coveira durante o dia e vaga pelos túmulos durante a noite. Uma vez por mês ela precisa comer um cérebro humano fresco, caso contrário ela pode acabar virando um desses zumbis saídos de um filme do George A. Romero.

O mais divertido de iZombie é a irreverência. O mundo da HQ é povoado por outras criaturas desmortas. Os amigos de Gwen são uma fantasma “avoada” que morreu na década de 70 e não se dá bem com novidades do mundo moderno e um geek que, nas noites de lua cheia, se transforma em um “terrieromem”. Tipo um lobisomem, mas ao invés de lobo, ele vira um cãozinho terrier.

Gwen e seus amigos Ellie e Scott (que não é tão amigo assim, na verdade) procuram desvendar o mistério do assassinato do último portador do cérebro que a zumbi comeu. Não porque se importam ou por ser “a coisa certa”, mas porque as memórias do morto ficam enchendo o saco dela até que o assunto pendente seja resolvido. Paralelamente, dois caçadores de criaturas desmortas procuram desmantelar um esquema organizado por vampiras donas de um paintball que atrai idiotas achando que vão comer alguém mas acabam sendo comidos.

É difícil não se encantar com iZombie, seja pelo carisma dos personagens, pelo humor negro, pela narrativa fluida de Chris Roberson ou pela parceria de Mike e Laura Allred, nos desenhos e nas cores. Existem, claro, alguns deslizes na narrativa, como um capítulo todo bem didático sobre os tipos de desmortos que vagam pela terra. Em algumas partes lembra bastante um filme do Nolan. A arte também acaba destoando do conteúdo geral em alguns momentos. Cheguei a ter a impressão que tinha sido finalizada por outra pessoa, até.

Mas no geral a leitura é bem agradável e vai te fazer rir.

Porque ler: Revisita o gênero com humor e com personagens carismáticos. E por Mike e Laura Allred.
Porque não ler: Ainda assim faz parte de um gênero já desgastado. Se você não aguenta mais ouvir falar de zumbis, talvez não curta.

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Autor: David Small
Publicado no Brasil pela LeYa

Há algum tempo o termo “graphic novel” parece ter perdido um pouco o sentido. Para ser categorizado como tal, hoje em dia, basta ter um acabamento bonito e um tratamento editorial mais caro. Por isso, a categoria acaba saturada, e obras como Retalhos, Persépolis e Azul é a Cor Mais Quente disputam espaço com arcos de HQs comerciais encadernados. Nada contra, claro, afinal consumo HQs comerciais aos horrores. Porém graphic novels costumam ser obras com uma narrativa mais intimista, apresentando uma visão única do autor sobre o mundo e uma arte menos direta e mais metafórica. Cicatrizes, de David Small, foi um grande achado.

A leitura é bem rápida (logo direi por quê). Finalizei o livro durante metade de um voo de São Paulo a Hell City. Na outra metade, com o livro no colo, fiquei olhando para as nuvens pela janela e pensando “porra…”

Nesta obra autobiográfica, David Small conta sobre como perdeu a voz após uma cirurgia no pescoço que danificou suas cordas vocais. O silêncio então dita o estilo narrativo. Cicatrizes tem poucas palavras escritas e a comunicação com o leitor se dá principalmente através da arte. A metáfora visual é o recurso mais utilizado para descrever a forma como David atravessa sua infância e adolescência. O medo de encarar um mundo gigante e assustador quando se é criança e angústia de não conseguir ser compreendido. Pior ainda é lidar com a solidão e negligência familiar, vivendo em um estado em que ele quase sempre está prestes a gritar mas não pode. Como se não fosse difícil o suficiente ser adolescente, quando a sociedade mal se importa em te ouvir.

A falta de comunicação, porém, já era regra no lar de David antes da cirurgia. Cicatrizes fala sobre o quão nocivo pode ser um lar onde a comunicação está ausente. Onde os membros da família não compartilham seus pensamentos e opiniões e se expressam através de qualquer outro tipo de ruído, menos a fala. Não demonstram amor e cooperação mútuos, só estão unidos por pura convenção social.

A relação de David com sua mãe é turbulenta e norteia praticamente sua vida e seu comportamento agressivo. As únicas vezes que a vemos sorrir são quando ela não está se dirigindo ao filho. Testemunhamos a deterioração da família através de borrões e imagens que se sobrepõem em monótonos tons de cinza de nanquim aquarelado.

Não há muito mais o que falar sobre Cicatrizes, já que as palavras têm pouco espaço nesta graphic novel.

Por que ler: Principalmente por que é bom dar uma pausa nas figuras multicoloridas e narrativas frenéticas para apreciar uma leitura mais contemplativa e íntima.
Por que não ler: Sinceramente, não vejo motivos pra não ler. Bom… melhor não ler se você estiver num humor muito depressivo.

Bom, fica aí mais um post com algumas recomendações e desrecomendações. Se você já leu ou se interessou por algum dos títulos acima, registre a sua opinião aí nos comentários!

Bom final de semana e até domingo!
-Feliz

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4 respostas em “Friday, bloody Friday #120

  1. “Pode ser que eu esteja velho e resmungão demais”
    Talvez haha
    Desde que vi aquele vídeo seu e do Zangado falando de Tenchi Muyo eu comecei a pensar mais sobre isso, mas Tenchi eu assisti quando era criança e está no meu coração. (Mas sim, é fraco em vários pontos) 😀
    Love Hina eu estou acompanhando a republicação da JBC e estou gostando muito, apesar de toda essa coisa clichê a história é boa e tem um desenvolvimento. É verdade que fica naquele chove e não molha, mas acredite, se desde o começo o Keitaro se decidisse da vida todos iriam parar de acompanhar a história.
    Assim que vi After School eu queria assinar (não gosto de ter coisas incompletas) mas não queria correr o risco de pagar 70 reais por algo que talvez não correspondesse as minhas expectativas. After é um slice of life, geralmente nesses gêneros as histórias não tem bem uma continuidade, não se desenvolvem muito. Slice of life basicamente mostram os cotidianos bem humorados dos protagonistas. Por isso achei estranho esses Phantons. Ainda não me decidi. -_-
    Obrigado pelo post Feliz!

  2. Hahaha, nunca ouvi falar de After School of the Earth, mas quando você começou a citar a arte, e que comprou por acaso, eu tinha certeza absoluta que teria um enredo fraco demais, não sei porque. Eu só estava esperando você dizer que é uma bosta a partir do momento em que você disse que a arte é linda. Eu compraria algumas edições, se eu topasse, porque gosto de apreciar belos traços, e também gosto muito de desenhar. Obrigado pela recomendação, se eu não tiver muita preguiça, vou procurar outras obras do autor pra ver se é tudo harém ecchi slice of life com plot de shounen genérico e dama forçado. Não sei qual o problema da indústria dos mangás, andam aceitando muito mangá repetido com uma “skin” diferente.

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