Friday, bloody Friday #110

Boa sexta-feira, leitores!
Hoje temos mais um posts com recomendações de quadrinhos. Porém, diferente das recomendações anteriores, os lançamentos são mais recentes. Ou seja, se você for à banca mais próxima, deve encontrar os títulos desse post por lá.
Também, a partir de agora, vou avaliar os títulos com notas de 0 a 10. Claro, as avaliações vão de acordo com meus critérios. Cada um tem todo o direito de discordar e me xingar muito no twitter.

Vamos lá:

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Roteiro e desenhos: Danilo Beyruth
Graphic MSP
Panini Comics

Nunca tinha prestado muita atenção no Astronauta quando lia Turma da Mônica. Sempre me pareceu um personagem deslocado demais daquela turma de crianças. Foi só depois de ler O Astronauta – Magnetar (o primeiro título do selo Graphic MSP) que percebi que o maior propósito daquelas histórias era mostrar que ainda há muito nessa vida a ser visto e descoberto, assim como uma criança. Danilo Beyruth executou a tarefa de nos colocar diante da imensidão do Universo, pronto para ser explorado, com perfeição

Depois de Magnetar, outros personagens ganharam nova roupagem por outros artistas, como Piteco, a Turma da Mônica, Chico Bento e Bidu. Agora, o Astronauta volta ao selo mais uma vez pelas mãos de Beyruth com Singularidade.

É bem conveniente que esta HQ tenha sido lançada ainda na onda do filme Interestelar de Christopher Nolan, pois alguns paralelos podem ser traçados. Principalmente pelo fato de Beyruth ter optado por um roteiro mais cinematográfico e hollywoodiano, comparado à sua primeira passagem pelo personagem. Alguns maneirismos típicos de Nolan também podem ser identificados na narrativa, como o didatismo (nos recordatórios e nas falas dos personagens, que descrevem a ação já representada no desenho).

É difícil não comparar essa continuação com o seu antecessor, pois as duas obras são muito diferentes entre si, quase opostas. Em Magnetar, Astronauta Pereira, em missão pela BRASA (Brasileiros Astronautas) é enviado para coletar dados sobre um fenômeno incomum e, por descuido próprio, acaba ficando ilhado no espaço, sem comunicação e com mantimentos limitados. A história trata do isolamento e da solidão do personagem na tentativa desesperada de se manter vivo e mentalmente são. Em Singularidade, o elemento da introspecção dá lugar à intrigas e a disputa pela superioridade tecnológica. O Astronauta embarca na missão de coletar material próximo a um buraco negro, juntamente com a Doutora responsável por seu acompanhamento psicológico e o Major (um astronauta norte-americano).

A construção do roteiro nos padrões hollywoodianos fica evidente desde o começo, através das falas do Major. A percepção se estende com a construção de um vilão e o inevitável interesse romântico. Infelizmente, isso fez com que esta continuação ficasse bem abaixo das expectativas depois do que nos foi apresentado em Magnetar. Muito da profundidade psicológica do personagem foi perdida e a motivação do Major acaba caindo nos clichês. O mais triste, porém, foi a participação da Doutora, que, evidenciando que ainda há muito (muuuuuito) que se avançar nas questões da representatividade da mulher nos quadrinhos, desempenha apenas o papel de dama em perigo e interesse romântico. Mancada.

A fórmula, porém, funciona. A ação é bem pautada e o clímax gera alguns momentos empolgantes. Sem falar que Beyruth demonstra que entende bastante de roteiro e desenha pra caralho. A graphic apresenta painéis belíssimos, com destaque para as instalações da BRASA e o interior da Anomalia descoberta pela equipe. Magnetar foi o prenúncio de uma sequência de belíssimas obras do selo Gaphic, resta aguardar o que vem por aí depois de Singularidade.

Nota: 7,0

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Roteiro e desenhos: Jeff Smith
DC Comics
Panini Comics

Jeff Smith ganhou reconhecimento como cartunista nas páginas de quadrinhos dos jornais, com sua tira Bone. Porém, devido ao descaso cada vez maior com as tirinhas por parte dos periódicos (e uma certa influência de Bill Waterson), Smith decidiu publicar seu trabalho independentemente em formato tradicional pela Image. Os primos Fone Bone, Phoney Bone e Simley Bone então saíram das tirinhas para ganhar muito mais espaço e viver uma aventura de proporções épicas. Sem deixar de serem um cartum.

Essa é a beleza do trabalho de Jeff Smith, que foi transportada para a mitologia moderna dos super-heróis em Shazam & a Sociedade dos Monstros. O cartunista traz sua interpretação ao Capitão Marvel e sua contraparte, Billy Batson, carregando toda a essência que fez de Bone sua obra prima.
Já faz tanto tempo que os gibis de super-heróis se levam tão a sério que ver a inocência presente em A Sociedade dos Monstros é um grande alívio. Smith conta uma história mágica e grandiosa imprimindo a sensação de descoberta e aventura fantástica característica da Era de Ouro.
Na trama, o pequeno órfão Billy Batson é eleito pelo grande Mago para ser o alter-ego do milenar herói Capitão Marvel, a fim de proteger a Terra contra o mal iminente do Sr. Cérebro. O grande vilão planeja tornar a Terra um lugar habitado apenas por monstros e criaturas que consideramos “asquerosas”. Tanto o Capitão Marvel quanto Billy precisam trabalhar juntos, com ajuda de Mary Marvel (irmã de Billy) e Malhado (um espírito andarilho que pode assumir forma animal) para conter os avanços do Dr. Silvana e lidar com as consequências de se brincar com poderes cósmicos, a fim de vencer o Sr. Cérebro.

A narrativa é bem simples e direta, chegando a lembrar bastante Carl Barks, que influenciou bastante o trabalho de Jeff Smith. Em algumas passagens é possível ter a sensação de estar lendo um gibi do Tio Patinhas, como na cena em que Billy descobre Malhado no circo e na qual o garoto tenta convencer os jornalistas da ameaça de Silvana.

Talvez Shazam & a Sociedade dos Monstros agrade mais os leitores mais velhos, que cresceram antes da explosão dos super-heróis em Hollywood, que passavam a tarde com a cara colada nos gibis tomando Toddy. Não espere uma lógica intrincada na sequência de acontecimentos ou uma megassaga prepotente. Abrace a inocência e sinceridade de uma história fantástica e aprecie os belos painéis cuidadosamente desenhados pelo autor. Esqueça por um momento aquelas figuras sérias e sisudas que se tornaram os super-heróis e lembre o prazer de abrir um gibi e mergulhar numa aventura.

Nota: 8,5

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Roteiro: Neil Gaiman
Desenhos: Barron Storey, Bill Sienkiewicz, Frank Quitely, Glenn Fabry, Miguelanxo Prado, Milo Manara, P. Craig Russel
Vertigo
Panini Comics

Estava eu fuçando gibis na banca e de repente pensei: “Opa! Sandman encadernado!”. Quando vi a escalação de artistas da edição, entrei num estado de “shut up and take my money”. Gaiman, seu filho da puta… Só trabalha com os melhores!

Não vou me estender aqui com explicações. Ainda no Friday #018 (clique para ler), em que falei sobre o Volume 03 lançado pela Panini, procurei fazer uma breve explanação sobre a obra prima de Neil Gaiman. Noites Sem Fim contém sete histórias, uma para cada um dos Perpétuos.

O volume começa com Morte e um conto ilustrado pelo meu artista favorito de Sandman, P. Craig Russel (que ilustrou Ramadã e Os Caçadores de Sonhos). A história fala sobre um jovem soldado que, quando criança teve um breve contato com a Morte e passou a ter uma perspectiva diferente do mundo, chegando conhecer vidas passadas.
Em seguida, o mestre dos quadrinhos eróticos Milo Manara adequadamente ilustra um conto de Desejo, @ perpétu@ andrógin@. Aqui, Gaiman relata uma história de poder derivado do desejo, que Manara executa com a perfeição costumeira de seu traço.
O terceiro capítulo é de Sonho, e como de se esperar, é depressivo. A arte alegre e colorida de Miguelanxo Prado ameniza um pouco o tom normalmente gótico quando o foco é Sonho, mas a frieza melancólica do personagem escrito por Gaiman predomina.
Barron Storey e Dave McKean apresentam um capítulo perturbado de Desespero, que consiste de diversas ilustrações e mini-contos que evocam uma sensação de asfixia.
O clima de opressão acaba com o capítulo de Delirium, ilustrado por Bill Sienkiewicz, seguindo os passos de cinco pessoas convocadas pelo corvo Matthew numa viagem lisérgica por suas mentes perturbadas para libertar a mais jovem dos Perpétuos.
Com os pés no chão, acompanhamos os efeitos que Destruição podem causar na Terra e entre as pessoas que dele se aproximam. A história é ilustrada por Glenn Fabry, famoso por suas capas de Preacher.
O volume fecha com um breve conto de Destino ilustrado pelo fodaço Frank Quitely. Nunca tinha visto como o trabalho desse cara fica bonito fora do mainstream. Apesar de ser uma história curta, descobrimos bastante do misterioso Destino e todo conhecimento que ele carrega nas mãos.

A edição tem acabamento de luxo e sai incrivelmente barata. Não tem desculpa para não levar para casa. Quem ainda não conhece Sandman, é uma boa opção para entrar pela primeira vez no universo lúdico do Sonhar.

Nota: 9,5

Por hoje é só!
Se está procurando algo bacana para passar o tempo neste fim de semana, a sua banca tem boas opções. Se interessou por algum em particular? Já leu algum? Gostaria de fazer alguma observação? Deixe sua opinião registrada aí nos comentários.

Bom final de semana e até domingo, leitores!
-Feliz

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6 respostas em “Friday, bloody Friday #110

  1. Desses aí eu só li Singularidades e gostei. Claro que não tanto quanto Magnetar, mas ainda sim considero uma bela obra de ficção-científica. Realmente existe no roteiro a disputa acerca da superioridade tecnológica, mas eu identifiquei um questionamento muito mais interessante que é sobre a ação do homem com o elemento desconhecido. Algo como: “O homem perante algo ‘superior’ e a sua reação perante isso”. Hahahaha, mais ou menos isso. Acredito que muitas pessoas questionariam, se questionariam e agiriam de formas diferentes frente algo tão poderoso como aquilo visto na HQ. A obra trata isso também. O Astronauta pensa de uma forma, o Major de outra completamente diferente.

    Mais do que qualquer outro filme, vejo uma influência aí enorme de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Até mesmo a nave-pirâmide lembra o monólito em seu propósito, poder e suposta origem. Só insert rápido: além de 2001, eu vi que Magnetar foi fortemente influenciado pelo filme Lunar, do diretor Duncan Jones (filho do fodão modafoca bagarai David Bowie). Voltando ao Singularidade (ou a 2001): E se o homem encontrasse com “deus”? Digo, “deus” no sentido de uma força tão superior e devastadora capaz de transformar os elementos contidos no próprio universo. Alguns indivíduos gostariam de estudá-la, outros teriam medo, alguns gostariam de tomar o fogo pra si (o Major), etc…

    Enfim, esse subtexto contido no roteiro da HQ tornou minha leitura bem interessante. Ah, uma coisa que eu gostei mais em Singularidade do que em Magnetar: a arte. As cores de Cris Peter estão belíssimas e os desenhos do Danilo bem mais detalhados.

  2. Nunca entendi qual é a do Shazam, e não consigo vê-lo como um personagem profundo e multi-facetado. Anyway, vou dar uma chance, já que você indicou. xD

  3. Feliz, não sei se já leu mas recomendo Y: O Último Homem.
    A história é original e os personagens (principalmente o protagonista) são carimasticos e cada capitulo é surpreendente. Melhor mesmo é o final.

  4. eu até pensei em comprar a do Sandman,so que nesse mes a panini colocou pra fuder.eu compro 4 resvistas e as acompanho,homem aranha superior,homem de ferro,a teia do homem aranha superior,e Deadpool.deadpool e lançado sem vc saber quando sera lançada de novo,mas nunca eles lançam deadpool no mesmo mes que a teia do aranha.so q dessa vez eles fizeram isso.e me fuderam esse mes…

  5. Desses que você me indicou só não peguei Sandman porque não sou quaquilionário, sem falar que nunca li, e quando ler, lerei por scans, pra depois garimpar os encadernados.
    Sinceramente não consegui gostar de singularidade, achei bem clichezão, sem falar na falta de desenvolvimento dos personagens, é uma obra que deixou muito a desejar na minha opinião, ainda mais levando em conta que eu não li Magnetar e fui no hype do pessoal que tava falando que era simplesmente magnífica, deslumbrante, um deleite para os olhos e para a alma. Os desenhos são bons, as cores melhores ainda, mas não consegui mesmo gostar do roteiro que poderia ter sido muito melhor.
    Shazam pelo contrário é um grata surpresa, um gibi descompromissado, leve, bem bacana. Não tenho muito o que falar, a análise do gibi é essa, ele tem cento e poucas páginas que fluem bem, coisa que edições com 24 páginas não fazem bem. Jeff Smith nos apresenta uma HQ com belos quadrinhos e um roteiro simples (e bem saudosista, sendo sincero) e que funciona. Somos apresentados a um enredo fantástico e ingênuo, sem uma grande trama, mas com alguns mistérios ao longo dela, que aos poucos vão sendo revelados e constituem uma boa história, bem divertida e descompromissada. É a releitura do Shazam por Jeff Smith.

    Pra terminar gostaria de acrescentar que gosto de quadrinhos bem escritos, não precisa ser uma trama complexa e minuciosa, nem ingênua e simples, acredito que cada quadrinho tem sua própria forma.
    Y o último homem é excelente, quem não leu, leia, um dos melhores finais que eu já vi.
    Recomendo o clássico Lobo Solitário aos camaradas, excelente e também o ótimo Blacksad.

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