Giblog #098

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Tenho discutido muito comigo mesmo nessa última semana.
Os ataques ao Charlie Hebdo em Paris na última quarta-feira deram um bocado a se pensar. É algo grande demais para simplesmente esquecer em poucos dias, principalmente por não se tratar de um ato que teve começo e fim naquele dia. É um assunto que possui muitas camadas. Religião, liberdade de expressão, retaliação e justiçamento, cobertura da mídia e agenda setting, naturalmente entraram na discussão também.

A comunidade artística ficou chocada com a morte de pessoas influentes do cartum mundial, como Wolinski, Cabu, Charb e Tignous, solidarizando-se imediatamente e lançando o slogan “je suis Charlie” (eu sou Charlie).
E como já era de se esperar (e demorou menos do que imaginei), houve quem responsabilizasse os mortos, visto que haviam retratado o profeta Maomé em suas charges. Houve também uma onda de ira contra o Islã e suporte incondicional ao periódico. Contra a religião institucionalizada de uma forma geral, aliás.

Mas há muitas coisas a se considerar antes de tirar conclusões emocionais imediatas. A primeira, é que não, os cartunistas do Charlie não mereceram morrer. Terrorismo e assassinato são respostas completamente desproporcionais. Morte é a “solução final” para um conflito, repudiada inclusive por inúmeras religiões, entre elas o cristianismo (perdoar os inimigos, dar a outra face e talz). Religião esta de muitos que vociferam aos perdigotos que “bandido bom é bandido morto”, aliás.

A segunda é que, o mal aqui também não é a religião. Por mais que muitos repudiem ou discordem de preceitos e dogmas espirituais, deve-se ao menos reconhecer a religião como um traço cultural fortíssimo. Qualquer que seja. Portanto é igualmente idiota associar o fanatismo e o terrorismo à esse aspecto cultural. Pois o fanatismo é uma doença que atinge todo tipo de ideologia. E motivos para matar o próximo, as pessoas sempre acabam encontrando.

Devemos lamentar o ato e solidarizar com as vítimas, mas da mesma forma é possível fazer isso sem torná-las heróis. Pois entre todo o ocorrido, é preciso observar também todo o contexto do Islã na Europa, onde vem crescendo uma onda de repúdio à religião e grupos populares anti-islã vêm ganhando força.
É importante ressaltar também que o Charlie em alguns casos fazia humor de forma tão escrota quanto Danilo Gentilli e Rafinha Bastos aqui no Brasil, através de generalizações e piadas fora de contexto que agrediam não necessariamente o opressor.

Não que eu não acredita que existam assuntos-tabu, que religiões são intocáveis. Por mim, tudo bem. Mas da minha parte, acredito que seja mais válido satirizar aqueles que usam esse conceito espiritual para diminuir as pessoas, seja através da consolidação de preconceitos, disseminação da cultura do ódio, imposição de dogmas ou comercialização da fé.

Enfim… eu preferi não abordar o tema antes aqui no blog porque senti que deveria ler mais sobre ele. Ver diversos pontos de vista. E eu posso estar errado com o que disse aqui, em breve posso ter outra opinião sobre o assunto. A única certeza que tenho até agora é a tristeza pelo ataque e o pesar pelas mortes. E que nos próximos dias ainda vou pensar bastante sobre isso.

Para ver algumas opiniões sobre o atentado, seguem alguns links:
Estadão: “Não podemos chamar de islâmico o atentado”
Folha: “Laerte: No Brasil o Charlie Hebdo não existira”
Blog do Leonardo Boff: “Eu não sou Charlie”
Blog Descolonizações: “Porque não sou Charlie Hebdo”
The Guardian: Joe Sacco: On Satire – a response to the Charlie Hebdo attacks

O que acha disso tudo, leitor? Dê sua opinião aí nos comentários.
-Feliz

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5 respostas em “Giblog #098

  1. Eu acho impressionante a hipocrisia daqueles que responsabilizam os cartunistas pelo ataque, quase todos os textos começam com algo que pode ser interpretado como: “nada justifica os ataques, MAS”…
    Os caras tentam se escondem atrás dos discursos aparentemente politicamente correto, mas são um bando de projetinhos de ditadores caga-regras do carai. Tão mandando um “bem-feito” velado só porque Charlie Hebdo não era o seu jornal favorito.
    E o pior são os argumentos: “Ah! Mas eles humilhavam muçulmanos e mimimi, eles eram racistas e mimimi”…
    À merda com esses “inquisidores do humor”! Não é porque você faz piada de negros, judeus, loiras, ruivos, asiáticos ou muçulmanos, que isso significa automaticamente que você é racista.
    Eu me preocupo mais é com essa gente que leva a sério a porra de um jornal satírico, do que com as pessoas que ri com as piadas que eles faziam. Racistas sempre falam sério em seus discursos de ódio, tão sério que acabam botando em prática.

    Jornais como Charlie Hebdo são umas das coisas que precisam existir no mundo e, por mais escroto que seja, esse humor ofensivo é necessário porque gente que não aceita brincadeiras não deve ser levada a sério.
    E se cedem privilégios ao profeta muhammed, depois quem vai ser o próximo? O presidente? O partido de direita/esquerda facista?
    Que vá dar meia hora de rabo quem quer privilégios! Tem mais é que satirizar a tudo e a todos, e se tu for alvo e não gostar, então arrume uma forma de satirizar seus satirizadores! Piadas se combate com piadas, não com censura.

  2. Pois é. Acho que por serem duas culturas tão diferentes da nossa, é bem difícil formar uma opinião. De qualquer jeito, é impossível, pelo menos pra mim, deixar passar um acontecimento desses sem pensar e ler bastante a respeito. Concordo totalmente com o que você disse sobre ser possível se solidarizar com as vítimas sem transformá-las em heróis. Ou culpabilizar os extremistas que fizeram o atentado sem demonizar a comunidade islâmica como um todo. Sei lá. É um assunto delicado. E quem sabe quais serão as próximas consequências dele, né? Fica aí a tristeza pelo atentado (e provavelmente muitas discussões e opiniões).

  3. O mundo tem seus defeitos o pio deles é essa maldita religião que ao longo da história só vem provando que a pessoas que podem ser manipuladas muito muito fácil e quando tem religião no meio é dois tempo ninguém pode fala mal da religião de outra pessoa que só falta leva fogo
    o que esse pessoal fez foi a mesma coisa temos que um dia acaba com esse merda de religião e ser mais racional evoluir para um mundo sem discriminação sem fanatismo sem querê coloca um Deus acima do outro pq tudo é um só bem isso que eu acho é por uma dessas que começa uma guerra

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