Friday, bloody Friday #083

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Vocês já sabem que Calvin e Haroldo é minha tira favorita.
Nos últimos dias, minha relação com o trabalho genial de Bill Watterson se aprofundou depois de ler a coletânea “Calvin e Haroldo: O Livro do Décimo Aniversário”. O livro, além de ser uma coletânea de tirinhas selecionadas e comentadas pelo autor, também apresenta alguns textos com suas opiniões e pontos de vista em relação à profissão de quadrinista (especialmente de tirinhas de jornal) e sobre o Trabalho, em si.

Também recentemente compartilhei em meu Facebook pessoal um artigo do blog Papo de Homem que contém um discurso de Watterson ilustrado pelo site Zen Pencils, além de algumas de suas declarações.
Clique aqui pra ver o post!
E leia os quadrinhos até o final. É bem bacana!

Como toda pessoa normal, eu passei um bom tempo preocupado com o futuro e sofri as angústias de não saber o que fazer da vida. A única coisa que eu sabia é que sempre gostei de desenhar, e de tudo que era relacionado a desenho, como quadrinhos, desenhos animados, pintura, etc. Mas naturalmente o anseio de ser um desenhista foi brutalmente esmagado pela lógica fria do mercado de trabalho competitivo, que qualifica as pessoas pelo prestígio que uma carreira profissional “séria” proporciona.

Recentemente participei de um workshop sobre gestão de carreira profissional. O instrutor, logo no começo, perguntou a cada participante qual era a profissão de seus sonhos na infância. Respondi que quando criança sonhava em ser paleontólogo, porque tinha fascínio por dinossauros e outras criaturas pré-históricas. Entre outros colegas que diziam que queriam ser médicos e professores, ouvi muitos dizerem que, quando crianças, queriam ser economistas, diretores comerciais, representantes empresariais… Crianças! Fiquei estupefato e só pude lamentar por terem tido uma infância tão chata e carente de sonhos.

Refleti o quanto é prejudicial que sejamos educados desde tão cedo a acreditar que a única forma de conquistar a verdadeira felicidade é através de cargos de prestígio, salários polpudos, carro do ano na garagem, casar-e-ter-filhos. Ou seja, viver o sonho médio. Outras formas de ganhar a vida são consideradas pelo cidadão comum como uma excentricidade, uma subversão. “Você está errado”, é comum dizerem. “Mas o que você faz DE VERDADE?”. Como disse Bill Watterson, as pessoas vivem e agem “como se um título e salário fossem as únicas medidas do valor humano”.

Valor. Isso é uma coisa importante a ser observada na construção da sua carreira profissional, esteja você já inserido nesse contexto ou ainda considerando o que vai fazer da vida. São nossas crenças, aquilo que pauta nossas ações e nos define como pessoa. Como posso dizer que meu valor fundamental é a família se meu trabalho exige que eu viva a maior parte do tempo afastado dela? Como posso dizer que a liberdade é tão importante pra mim se vivo para cumprir ordens de uma pessoa ou obedecer demandas dos meus clientes ou do mercado? Como posso dizer que sou uma pessoa ética se uso de práticas ilegais ou imorais para conseguir uma bonificação na empresa e o reconhecimento dos meus chefes? O quanto de nossa alma estamos dispostos a vender para trazer dinheiro para nossos bolsos?

“É surpreendente o quão duro nós trabalhamos quando o trabalho é feito para nós mesmos”, disse Watterson.
Tive a possibilidade de viver essa afirmativa. Não foram poucas as pessoas que já me disseram (e dizem até hoje) que eu deveria desenhar profissionalmente. Que eu deveria trabalhar em algum estúdio de ilustração, agência de publicidade. Que deveria desenhar para o Maurício de Sousa, pra Marvel, pra DC, ou quem quer que seja. Que deveria ser um ilustrador freelancer e desenhar cartilhas, cartazes, panfletos, etc. Devo dizer que já passei por muitas dessas experiências profissionais e todas foram extremamente desagradáveis. Primeiro, porque ninguém parece disposto a pagar aos ilustradores um preço minimamente justo. “É só um desenhinho simples”, “isso você faz rapidão”, “vai ter bastante divulgação”, já ouvi tudo isso. Segundo, porque descobri que nada me deprime mais do que colocar minhas habilidades à disposição de gente que, por contrato escrito ou mera convenção, tem o direito de exigir como devo fazer meu trabalho. Tudo bem, estou sendo pago pra isso, mas ao mesmo tempo estou deturpando uma experiência pessoal e íntima que deveria me proporcionar prazer. Percebi o quanto isso me deprimia e parei.

Com o Café do Feliz, eu tenho a liberdade que o trabalho de desenhista/ilustrador não proporciona. Claro, sempre crio histórias e faço meus desenhos para vocês, leitores. Vocês são os meus “clientes” e constantemente fico atento aos seus anseios com relação às histórias e ao futuro dos personagens. Mas sou eu o diretor. Cada palavra, cada painel, cada elemento colocado dentro do quadrinho está lá porque eu decidi que deveria estar. E não poupo esforços para que as coisas saiam do jeito que eu julgo que seja melhor. Não foram poucas as vezes que eu refiz uma tirinha toda porque achei que estava uma bosta, não foram poucas noites passadas em claro desenhando. Constantemente busco ideias e me preocupo em conseguir escrever algo bacana, que é o que eu considero mais difícil. Nem sempre consigo e nem sempre fico satisfeito com o resultado. Várias vezes já olhei para uma tira com certo desgosto e pensei “podia ter ficado bem melhor”. Mas pode ter certeza que me esforcei para fazer o melhor e que nunca estive tão satisfeito pela oportunidade de praticar aquilo que me faz feliz, que é criar quadrinhos.

“Todos temos diferentes desejos e necessidades, mas se não descobrirmos o que queremos de nós mesmos e pelo que nós levantamos, vamos viver passivamente e não realizados”, disse Watterson. E eu acredito que, acima de tudo, esse deve ser o principal ponto a ser considerado na escolha da sua carreira.

Pra finalizar, antes que digam que estou sendo utópico demais ou mesmo subversivo, não tenho absolutamente nada contra empregos formais, ou pessoas que visam profissões de prestígio social, títulos e uma vida financeira confortável. Contanto que você seja feliz na busca de seus objetivos, faça-os acontecer. Mas reflita se isso é algo que realmente vem dos seus desejos, ou é algo que está enraizado na sua cabeça por pura convenção. Porque se você não consegue encontrar a realização no trabalho ou um senso de propósito naquilo que faz, vai para sempre contar os minutos para bater o ponto da saída, contar os dias para o fim de semana e ficar desesperado ao final de cada domingo e feriado. Eu já cheguei a ler um texto completamente alienante que basicamente dizia: “quem disse que você tem que ser feliz? Você tem é que trabalhar e pronto, portanto, não reclame”. Não faça isso consigo.

Ah! Fica aqui mais um quadrinho do Zen Pencils, dessa vez é um discurso do filósofo inglês Alan Watts chamado “E se o dinheiro não existisse?”, que eu traduzi para vocês:

alan watts traduzido

E é isso aí, leitores!
Sei que muitos aqui estão na angústia de decidir o que fazer da vida. Não caiam na falácia de que “o trabalho enobrece”. Conheço muita gente que trabalha duro e não vale o papel higiênico que usa pra limpar a bunda. O trabalho pelo trabalho não proporciona a ninguém uma vida plena e realizada. Descubra quais são seus valores e procure absorver bem a mensagem do discurso de Bill Watterson e Alan Watts. Isso vai ajudar bastante na escolha da sua vida profissional.

Bom final de semana a todos e até segunda-feira!
-Feliz

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13 respostas em “Friday, bloody Friday #083

  1. Muito bom o post, Feliz. Simplesmente adorei, eu tenho 15 anos e sei oque é a pressão dos meus pais sobre o mercado de trabalho, eu acho que vou fazer Direito sempre me falam que sei argumentar e por isso tenho vocação pra advogado, concordo em partes mas oque eu tenho em mente na faculdade e em um emprego é que eu faça algo que gosto que me sinta feliz em fazê-lo eu não quero ser um “empregado” que faz tudo oque mandam e vive em estresse e não é feliz com o que está fazendo e acordar no outro dia com vontade de ficar na cama e não ir trabalhar, eu gosto de videogames se pudesse trabalhar com isso seria muito bom mas é muito dificil trabalhar com games, eu tento fazer oque me faz feliz e oque me deixa contente como estudante e como pessoa, eu sou apegado aos amigos por que tenho medo de ficar sozinho não sei se isso tem haver mas eu quis falar por que andar com eles me deixa feliz, tenho vários problemas em casa e são meus amigos que me fazem ter um pouco de felicidade e eu espero que as pessoas tenham amigos como eu tenho( a parte dos amigos não tem muito haver com o assunto do post ou como comecei o comentário mas eu quis dizer pra ilustrar como isso me ajuda)

    Obrigado pela atenção, Feliz
    -Rodrigo
    Adoro seu trabalho, continue assim. Eu vim ao site pelo zangado mas entendo que são coisas bem diferentes e eu analiso o seu trabalho separadamente e não fico dizendo que gosto por que sou fã do zangado, enfim sou muito seu fã. Punk the System!

    • Ter escolhas e saber o que nós realmente desejamos esse é o exemplo que o feliz que nós mostra adoro esse site mais lembre todos todos os trabalhos são estressantes

  2. nem decidi o que quero fazer, Direito, Marketing, Publicidade, Ciências Naturais, Biotecnologia… tantas opções e tão pouca vontade de lutar.

  3. Meu você foi muito “Feliz” neste post, as pessoas devem ser criadas para serem felizes, e não para ganhar dinheiro, como sempre digo para todos o Dinheiro é uma MALDIÇÃO que os HOMENS criaram, o importante não é ganhar dinheiro, o importante é ser Feliz.

  4. Paleontólogo? Eu queria ser arqueólogo… Sim, eu assistia os filmes do Indiana Jones toda a semana praticamente. Vez ou outra eu queria ser o Batman também, mas depois desencanei desse e por um bom tempo almejei ser detetive.

  5. Amei o post! Entendo bem a ideia de que podemos escolher o que queremos e não o que é posto. Devemos ser feliz naquilo que trabalhamos e não apenas máquinas. Estou com muita duvida de qual faculdade vou fazer, mas depois do seus post, vou pensar com carinho. Parabéns Feliz! E que você seja muito feliz!

  6. Pingback: Friday, bloody Friday #100 | Café do Feliz

  7. Pingback: O Fim de uma Era. | Café do Feliz

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