Friday, Bloody Friday #027

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Para mais posts sobre leitura, veja o Friday #011 e o Friday #018!

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HQ
Autor: Brian Lee O’Malley

Publicado no Brasil pela Quadrinhos na Cia. (Companhia das Letras)

Me pediram uma indicação de título para quem quer começar a ler quadrinhos. Acredito que a melhor resposta seja mesmo a série Scott Pilgrim, do desenhista canadense Brian Lee O’Malley. Publicado originalmente pela editora independente Oni Press em 6 volumes, a série foi trazida para o Brasil pela Quadrinhos na Cia., condensado em três volumes (cada um contendo duas edições), todos intitulados Scott Pilgrim Contra o Mundo.

A história começa quando o pós-adolescente-ainda-não-exatamente-adulto Scott Pilgrim começa a namorar uma garota chinesa colegial. Scott parece aproveitar bem sua “preciosa vidinha”, tocando com sua banda Sex Bob-Omb, saindo com os amigos, vivendo da mesada dos pais e morando em um casebre que divide com seu melhor amigo gay Wallace. Até conhecer a bad girl Ramona Flowers, nova na cidade, com seus cabelos coloridos e atitude de garota da metrópole. Scott decide fazer de tudo para ficar com ela, mas quando consegue…

…descobre que deve enfrentar seus Sete Ex-namorados malignos! É aí que a HQ surpreende os leitores incautos. O que começa como uma história sobre o divertido cotidiano de um grupo de amigos, torna-se uma jornada de um herói vencendo desafios para ganhar o coração de sua princesa.

E nisso a HQ acerta para conquistar o público. O autor faz essa metáfora da busca pelo amor virar um grande video-game. Inúmeras referências e elementos relacionados ao universo dos games são encontrados nos quadrinhos. É hilário ver vilões se transformando em moedas, personagens usando golpes especiais, magias, subindo de nível e obtendo vidas extras. São citados desde games clássicos a modernos. A experiência agradável de uma leitura dinâmica e bem humorada ganha um adicional de interlinguagem. Quase sentimos vontade de simular um combo ao virar as páginas.

Porém, mais do que um emaranhado de referências a games e outros elementos da cultura pop, Scott Pilgrim tem uma história sólida sobre auto conhecimento e sobre aprender com os próprios erros, sem lições de moral bregas. Crescer é difícil. Não é de repente que um dia você acorda e pensa “peraí, agora sou adulto”.

O traço de O’Malley causa uma certa estranheza inicial. A ausência de proporcionalidade é visível nos primeiros volumes, mas evolui exponecialmente junto com a história. A influência do mangá é imediatamente identificada, seja na opção pelo preto e branco reticulado, na caracterização dos personagens ou no estilo de narrativa. E isso, junto com uma texto bem fluido e com muito bom humor, é um atrativo para uma nova geração de leitores.

Scott Pilgrim começou como uma HQ indie que só eu gostava antes de virar modinha (hipster mode on) e ganhou notoriedade com a adaptação para os cinemas (que aliás, não assistam. Não precisa, sério). Como a cultura dos games nos dias de hoje foi muito além do público nerd, assim também estão as histórias em quadrinhos, e isso é uma coisa muito boa! Então, caro leitor, se você quer entrar no universo incrível dos quadrinhos, fica aí uma boa indicação.

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Livro
Autor: George Orwell

Publicado no Brasil pela Companhia das Letras

Meu livro favorito. Ever.
Se eu fosse professor de história ou literatura, colocaria 1984 como leitura básica para meus alunos. Mesmo escrito em 1948, é um daqueles livros que se mantêm atuais pela universalidade dos temas. É uma ficção política tão real que chega a assustar.

Escrito pelo inglês Eric Arthur Blair sob o pseudônimo de George Orwell, conhecido por ser um grande crítico da ditadura comunista russa, o romance nos mostra um futuro (na época em que foi escrito) distópico, onde a Inglaterra é parte de um dos três grandes Impérios, controlada por um regime totalitário representado pela figura do Grande Irmão (Big Brother), que, segundo inúmeros cartazes afixados em todas as ruas de Londres, está observando você. E realmente está, pois em todas as casas, os dispositivos de tv, além de transmitirem a propaganda política do Partido, serve também como uma câmera para monitorar todos os cidadãos (isso lembra alguma coisa?). Winston Smith, funcionário público, ao encontrar um exemplar de um livro considerado proibido, aos poucos começa a sentir um estranho sentimento de revolta contra as atrocidades que até então pareciam tão normais…

A genialidade da obra se dá na forma com que são apresentadas as ferramentas de controle sobre a população. O primeiro passo é a unificação dos partidos políticos em um só, o “Socing” (Socialismo Inglês). Ao eliminar a oposição, o Partido garante que a única ideologia válida seja a sua. Todas as outras são demonizadas, representadas por figuras fracas e malignas. Assim, qualquer noção de que uma outra forma de governar existe, aos poucos vai sendo eliminada. Em seguida, vem o controle do idioma. O inglês oficial gradativamente vai sendo substituído pela Novilíngua, um idioma simplificado em que uma única palavra pode ter múltiplos significados. Alguns termos, em desuso, acabam deixando de caracterizar sentimentos que também vão desaparecendo. Linguagem é poder. Assim, conceitos considerados perigosos para o Socing, acabam deixando de existir. Igualmente importante é o controle dos meios de comunicação. Não existe imprensa que não seja a Oficial. A história é escrita pelos vencedores, e assim, para o público, só existe uma versão dos fatos.

Todas essas ferramentas acabam eliminando qualquer senso crítico, qualquer pensamento original, deixando uma nação inteira em estado de ignorância crônica. Ao entender o contexto em que a população vive, não parece tão absurdo que o trabalho de Winston Smith consista em alterar documentos contendo fatos históricos para enaltecer o Partido e ressaltar a liderança do Grande Irmão. Não parece tão absurdo as pessoas se sujeitarem a ter em casa um aparelho que registra todas as suas atividades (as chamadas “teletelas”) e contém à força qualquer sombra de pensamento independente. Não fica difícil de acreditar que esse rebanho segue um líder que sequer existe de verdade. Mas se a verdade é imposta pelos detentores do Poder, quem pode dizer o que é fato e o que não é?

Leia também A Revolução dos Bichos, do mesmo autor.

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HQ
Autores: Jason Aaron (Wolverine, Justiceiro), R.M. Guéra

Publicado no Brasil mensalmente na Vertigo pela Panini Comics

Escalpo é uma série que é mais ou menos uma espécie de O Poderoso Chefão indígena pele vermelha dirigido por Martin Scorcese. É a história em quadrinhos que me faz comprar a Vertigo todo mês.

Criado por Jason Aaron e R.M. Guéra, Escalpo se passa na Reserva Rosa da Pradaria em Dakota do Sul, EUA, onde o cacique Lincoln Corvo Vermelho comanda um cassino para os turistas que passam por ali. Porém, mais do que entretenimento, o negócio de Corvo Vermelho envolve conflitos tribais, guerras territoriais, tráfico de drogas, estelionato e assassinatos.

Acompanhamos também os esforços de uma força-tarefa do FBI responsável por incriminar Corvo Vermelho, liderada por Earl Nitz, um agente com uma ética no mínimo duvidosa. Em meio a toda essa zona, acompanhamos também a vida de Dashiell Cavalo Ruim, filho de um grande amor do cacique em sua juventude. Dash é um elemento de ligação entre a lei e o crime, pois ele é um agente do FBI infiltrado na reserva indígena ao mesmo tempo que é um peão de Corvo Vermelho dentro da força-tarefa de Nitz. Dá pra imaginar que um cara assim surtaria fácil. Não ajuda em nada ele ser viciado em drogas e se envolver com a filha do cacique. Sentiu a influência de Os Infiltrados aí? Como eu disse, O Poderoso Chefão + Scorcese.

O que dá o rumo à série é a história do Cacique, que de ativista pelos direitos indígenas, passou a Chefão de um império que construiu com recursos financiados por uma organização criminosa. Mas ao mesmo tempo é interessante acompanhar a história particular de cada personagem secundário, como Shunka, o guarda costas oficial de Corvo Vermelho, Dino Urso Pobre, um jovem índio que quer mais da vida do que morrer na reserva e Diesel, um agente do FBI psicopata branco com sangue indígena. Todos eles, com sua própria história de vida, contribuem diretamente com a trama principal. Cada um tem seu papel dentro dos conflitos da reserva Rosa da Pradaria. A história ganha ainda mais força quando ilustrada pelo traço realista e cru de R.M. Guéra., até agora o melhor dentre os desenhistas que trabalharam na série.

Escalpo é brutal. Sem meias palavras. É aquela história em que ninguém presta, mas você quer ver todo mundo se dar bem, só pra ver a bosta bater no ventilador. Até agora eu não sei porque ninguém pensou ainda em transformar em uma série de TV.

E por enquanto é só!
Espero que tenham gostado das recomendações.
Nos vemos semana que vem!
-Feliz

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17 respostas em “Friday, Bloody Friday #027

  1. Lembro quando eu li Scott Pilgrim pela primeira vez. Me identifiquei demais com o personagem título… Se isso foi bom ou ruim, aí eu não sei. Li 1984 há tempos, está merecendo uma revisitada.

  2. “Scott Pilgrim contra o mundo” é uma HQ, no mínimo, peculiar. Recomendo muito para quem é gamer, não obstante a faixa etária… leiam, galera. Vale muito a pena.

  3. Já tentei o Scott Pilgrim, mas a arte me incomodava. Como você falou que melhora com o tempo, talvez dê uma segunda chance. Mas definitivamente vou checar Escalpo – me interessou MUITO. Índios badass com pinta de Corleone PRECISA ser bom.
    Não gostava muito de hq (só curtia um mangá de vez em quando), mas depois de começar The Walking Dead por insistência de um amigo vejo quanto tempo perdi. Quando comecei o volume 7 em dois dias de leitura, percebi o quão viciada fiquei! Agora o que mais quero é ler cada história em que conseguir colocar as mãos!

    • É muito bom ler HQ, a de The walking Dead é pra um publico mais adulto isso faz eu me decepcionar com a serie um pouco, pq tem que ser bem mais leve

      • Pois é! Fui ver a série depois de acabar o primeiro volume e esperava bem mais. Por parecer que vai seguir um rumo diferente das hqs, resolvi continuar assistindo… Fiquei curiosa com o lance do CDC. E você tem razão: a hq é beeem mais violenta (o que a torna mais realista, na minha opinião).

    • Riordan é muuuito bom, mas como o amigo Guto aqui falou, é um estilo mais descontraído (até bobinho às vezes). Eu já li Percy Jackson e os Olimpianos, As Crônicas dos Kane e estou acompanhando Os Heróis do Olimpo.
      Vivo recomendando aos meus amigos e todos gostam. Sei que a pergunta não foi para mim, mas dou pitaco de qualquer jeito: dê uma chance para o tio Rick! Você vai se pegar rindo alto enquanto lê. =)

  4. Já lí 1984 em inglês, e também está entre os melhores livros que eu já lí, Feliz. Laranja Mecânica é outro que criticava o comunismo e, assim como o 1984, parece muito atual, tanto que na sinopse lê-se ” É um romance que parece que foi escrito ontem por um hacker chapado”. =]]]

  5. Pingback: Friday, Bloody Friday #048 | Café do Feliz

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