Friday, bloody Friday #011

Hoje indico mais 3 histórias em quadrinhos bacanas. Meu objetivo nesse post é apresentar alguns títulos bem abrangentes, que podem cativar facilmente leitores ocasionais e habituais. Dessas histórias que trazem uma mensagem universal, fácil de
identificar, das que nos lembramos por anos e anos. Enfim, são três boas narrativas para qualquer um mergulhar logo de cara.
Vamos lá!

Roteiro: Brian K. Vaughan (Y: The Last Man, Runaways)
Arte: Niko Henrichon
Vertigo
Distribuido no Brasil pela Panini Comics

Em 2003, durante um bombardeio das forças armadas norte-americanas ao Iraque, quatro leões foram vistos andando soltos pelas ruas de Bagdá depois de fugirem do zoológico, que foi destruído. O autor Brian K. Vaughan transformou essa notícia em uma jornada pela busca de liberdade, e mais ainda, um questionamento sobre o que ela representa, e sobre como deve ser conquistada.
Vaughan usa o instinto de sobrevivência desses leões e de outros animais para descrever o cenário em questão através dos olhos da maioria da população mundial que não estava diretamente envolvida com aquela guerra. Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo. Até pouco tempo atrás, o inimigo eram os tratadores do zoológico, agora a ameaça parecia envolver o mundo todo.
Além da óbvia mensagem anti-bélica presente na narrativa, percebemos como os discursos de cada um dos felinos podem ser facilmente identificados em qualquer grupo de convivência humano. Há a anciã que acredita que as coisas estavam melhores sob o olhar dos tratadores; a jovem fêmea idealista, mas insegura da força de suas opiniões; o macho acomodado, liderando o grupo apenas por questões de convenção, já que não é capaz de emitir qualquer opinião própria; e o filhote, facilmente impressionável e vulnerável a qualquer informação que chegue a seus ouvidos.
Leões de Bagdá é uma bela crítica a uma guerra movida por interesses econômicos, à repressão de nossas vontades e à covardia humana de transformar assassinatos brutais em atos heroicos.
Uma leitura simples e tocante, magistralmente ilustrada.

Roteiro: Grant Morrison (All-Star Superman, Kill Your Boyfriend)
Arte: Frank Quitely (The Authority, All-Star Superman)
Vertigo
Distribuido no Brasil pela Panini Comics

A dupla Morrison/Quitely costuma render trabalhos memoráveis. WE3 aborda um tema muito usado por Morrison: o homem contra poderes opressores. Só que nesse caso, o “homem” é representado por três animais domésticos (um cachorro, um gato e um coelho), transformados em máquinas de guerra pelo Pentágono, por solicitação do Senado. O autor descreve os atos da política da forma mais facista e inescrupulosa possível. Na história, o governo pretende reduzir o contingente humano nas forças armadas, trocando-o por animais equipados com armaduras de combate e com inteligência artificial. Controlados da mesma forma que controlamos um personagem de video game, eles travarão todas as batalhas no futuro.
A trama começa quando os três animais escapam. Como eram animais de estimação, seu objetivo é encontrar suas respectivas casas. A partir daí, vemos uma versão distorcida daquele filme de sessão da tarde “A Incrível Jornada”. WE3 é brutal. O mecanismo de defesa inerente a cada animalzinho é potencializado pela massiva armadura em que eles se encontram presos. Nenhuma força é capaz de superar o instinto de sobrevivência dos três, e a arte de Quitely explicita isso muito bem através de sequências violentas.
O tema aqui presente é muito semelhante a Leões de Bagdá. Da mesma forma temos animais como protagonistas buscando seu lugar e enfrentando as consequências da busca pela liberdade. Porém a grande diferença é a relação entre o grupo, deixando suas diferenças de lado para ser uma equipe extremamente harmônica, que, finalmente longe da opressão humana, entende como cooperar para atingir objetivos comuns.
Morrison sempre teve afinidade com temas anarquistas. Assim como outras de suas obras (Como Matar Seu Namorado, por exemplo), ele defende que cada um só pode desenvolver plenamente sua realização pessoal livre de qualquer traço de influência de poder.
WE3 tem muito potencial para virar filme. Sugiro que leiam antes que algum grande estúdio compre os direitos de adaptar a HQ aos cinemas e pasteurizar completamente a mensagem em prol do uso da violência.

Daytripper:
Roteiro e arte: Gabriel Bá e Fábio Moon (10 Pãezinhos, Mesmo Delivery)
Vertigo
Distribuido no Brasil pela Panini Comics

Os gêmeos Bá e Moon já há muito tempo são motivo de orgulho nacional. É engraçado como Daytripper, uma HQ tão inserida na realidade brasileira, foi publicada primeiro no exterior e só depois chegou aqui.
Em Daytripper, acompanhamos a vida e a morte de Brás de Oliva Domingos. A história é curiosa já pelo fato de Brás morrer ao final de cada capítulo. A narrativa não-linear nos transporta a diversos períodos da vida do personagem (o título de cada capítulo é a idade de Brás naquele período). Mesmo sabendo o destino do personagem ao final de cada história, vivemos intensamente todos os momentos que o levaram até sua morte. Aprendemos com ele que não importa como a vida vai acabar, devemos celebrar cada descoberta que ela nos traz. São os acontecimentos cotidianos que constrõem o caráter de cada um, mesmo sem a gente perceber.
Vemos isso se consolidar perfeitamente durante a vida de Brás. Sua trajetória profissional, a busca pelo seu sonho de ser um escritor de sucesso, sua infância bucólica, a relação com seus pais, a construção de sua própria família, o nascimento de seu filho… Tudo isso inserido em um contexto facilmente identificado por todos nós, brasileiros. Nossa cultura finalmente foi representada como deveria em uma obra. E acontecimentos reais presentes na HQ, como o desastre do voo TAM 3054 em 2007, servem apenas para nos lembrar que a história de vida de cada um é importante e merece ser relatada.
Li Daytripper num tapa só. São 250 páginas de uma experiência que fica com você para sempre. Apesar de soar mórbido morrer a cada fim de capítulo, a sensação que temos durante e depois da leitura é de leveza e vontade de viver. Foi uma grande surpresa porque hoje em dia há pouquíssimas HQs que se propoem a celebrar a vida dessa forma, com uma visão tão otimista.
É uma leitura extremamente fácil, acessível a qualquer um. Impossível não se encantar com Daytripper. É a expressão perfeita do melhor que os quadrinhos podem oferecer.

-Feliz

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11 respostas em “Friday, bloody Friday #011

  1. Isso sim é que é post ! Gostei, eu sempre fui mais fã da arte de um mangá, mas esse Daytripper ficou na cabeça, vou dar uma pesquisada pra ver como faço para ler ele, e na próxima vez que você for fazer um post assim, coloca o numero de volumes ou sei lá, se a obra já foi finalizada ou se ainda continua em produção ( não tenho experiencia com HQ’s só com Mangás e Webtoons )
    Já leu algum Webtoon Feliz ?

    • Ettore, todos esses títulos são arcos breves e já fechados, foram publicados em encadernados pela Panini. Você pode achá-los em bookstores ou livrarias online. Recomendo mesmo começar por Daytripper, é uma história muito marcante!
      E bem, os webtoons que visito mais são o Mentirinhas, Levados da Breca, xkcd, Cyanide and Happiness e Perry Bible Fellowship.

      • hhmmm, obrigado, eu entrei nessa de webtoon mes passado através de um scanleator procurando mangás (http://www.otakuyo.com/) no começo achei estranho pra caramba aquela coisa de quadrinhos em tirinhas mas tbm achei meio muito louco pq em todo capitulo ( me referindo a noblesse agora, uma especie de shonen com comedia, vida escola no começo é um titulo que tem uns personagens um pouco marcantes ) dava pra recortar um quadrinho e usar como avatar se assim quisesse, bem da uma olhada ae se quiser, ele esta em continuação ainda acho que na Korea e tem acho que 3 volumes, até o/

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